Diagnosticada com câncer de mama na gravidez, mulher escreve livro para a filha: 'Queria contar com minhas palavras'
Moradora de Tatuí (SP) foi diagnosticada com câncer de mama durante a gravidez Arquivo Pessoal Aos 28 anos, uma moradora de Tatuí (SP) vivia um dos momentos ...
Moradora de Tatuí (SP) foi diagnosticada com câncer de mama durante a gravidez Arquivo Pessoal Aos 28 anos, uma moradora de Tatuí (SP) vivia um dos momentos mais esperados da vida: a primeira gravidez. O que ela não imaginava era que, durante a gestação, receberia o diagnóstico de um câncer de mama agressivo. A história, marcada por incertezas, tratamentos e pelo nascimento da filha Alice, foi transformada em livro. A obra será lançada nesta quinta-feira (27), em um evento em Tatuí. Saiba mais nesta reportagem. 📲 Participe do canal do g1 Itapetininga e Região no WhatsApp Ao g1, Beatriz Santos de Oliveira, engenheira civil, contou que descobriu um nódulo na mama antes de engravidar. Na época, o tumor tinha cerca de seis centímetros e foi classificado como benigno. "Quando eu fui no médico, aí o médico até falou, 'Bia, você tem um nódulo, não engravide agora. Só que eu já tinha parado de tomar remédio [anticoncepcional]. Aí eu voltei no médico com dois resultados, um com teste positivo, que eu estava grávida, e o outro que o nódulo não era câncer. Aí continuei gravidez normal, nunca tive nada na minha gestação, sempre foi muito tranquilo", comenta. Beatriz recebeu o diagnóstico de cãncer de mama enquanto estava grávida Arquivo Pessoal Em janeiro de 2025, Beatriz passou por uma biópsia. Inicialmente, os médicos ainda investigavam a causa das alterações, mas novos exames apontaram uma alta suspeita de câncer. “Quando eu vi que começou a crescer, aí eu já marquei direto um ultrassom. Só pra se ter uma noção, meu câncer era tão agressivo que o meu tumor já tinha dobrado de tamanho, estava com doze centímetros", relembra. O diagnóstico de câncer veio quando ela estava com 32 semanas de gravidez. Segundo Beatriz, os médicos explicaram que o caso estava avançado e que o tumor havia atingido a região da axila e outras áreas. “Eu saí do médico e fui para o meu obstetra. O meu obstetra estava na porta, esperando, chorando. Ele me abraçou e falou: ‘Bia, você vai conseguir’”, relembra. Tratamento durante a gravidez O mastologista Guilherme Ribeiro Fonseca começou a acompanhar Beatriz depois que o obstetra identificou um pequeno nódulo na mama durante a gestação, antes mesmo da confirmação de malignidade. Inicialmente, como o ultrassom apontou características consideradas benignas, a equipe optou pelo acompanhamento. Mas ao realizar um novo ultrassom, o mastologista identificou características diferentes das observadas inicialmente e decidiu pela realização de uma biópsia. “Quando eu fiz o ultrassom, vi que já não era um nódulo com características tão boas assim. Era um nódulo irregular na mama e a gente optou já por fazer uma biópsia para ter uma certeza absoluta do que era esse nódulo. Foi aí que veio o diagnóstico do câncer dela, já na gestação”, explica. Segundo o médico, a gravidez modificou parte da estratégia de investigação e tratamento. Alguns exames normalmente utilizados para avaliar se o câncer havia se espalhado para outras partes do corpo não poderiam ser feitos por causa dos riscos à gestação. Por isso, a equipe precisou recorrer a exames alternativos. “Quando a gente pega um paciente que não é permitido o uso de algum tipo de exame, a gente busca um outro exame alternativo que seja permitido. E no caso dela foi isso que a gente fez”, conta. Conforme Guilherme, o tumor de Beatriz era do tipo triplo negativo, considerado mais agressivo. Diante da gravidade do quadro, Beatriz precisou tomar uma decisão que envolvia tanto a própria vida quanto a da filha que ainda estava na barriga. "Se você descobre no início, infelizmente, a gestação não vai para frente. Só que no meu caso, eu descobri no final. Criança formada, quarto estava pronto, estava todo mundo na expectativa. Ele [médico] falou, 'está muito avançado, foi para a axila, para a garganta, você precisa fazer quimioterapia, você começa na quarta'. Eu falei, 'o quê? mas e minha filha?' ele disse, 'Bia, você não tem escolha'", relata a paciente. LEIA TAMBÉM Pacientes diabéticos enfrentam dificuldade para receber sensor glicêmico pelo SUS em Tatuí Itapetininga tem 5 pacientes com melanoma; médico explica importância do diagnóstico precoce Após diagnóstico de câncer na boca, eletricista transforma sucata em esculturas de metal no interior de SP: 'Trabalhar a mente' O médico explica que entre os possíveis riscos estavam a restrição do crescimento intrauterino e a redução do líquido amniótico, além de complicações para a mãe provocadas pela queda da imunidade durante a quimioterapia. Após buscar outras opiniões médicas, a mulher decidiu iniciar a quimioterapia ainda durante a gestação. Ela recebeu a primeira sessão quando estava com 34 semanas. Durante o tratamento, a bebê deixou de se movimentar e parou de ganhar peso e tamanho, segundo o acompanhamento feito pelos médicos. "Eu fiz a quimioterapia com ela na barriga. O hospital 'parou'. Só que, a partir do momento que eu comecei a fazer a quimioterapia, ela se parou de se mexer. Tanto que, quando eu fui fazer a quimioterapia, eu assinei um termo, porque ela podia morrer na hora, ela podia parar de crescer e ganhar tamanho e ela podia ter dependência química", relata. A previsão era realizar o parto com 37 semanas. Poucos dias antes, porém, Beatriz voltou a sentir a filha se mexer. Um novo exame também mostrou que a menina havia crescido e ganhado peso. Alice nasceu com 37 semanas e, apesar da preocupação dos médicos, não precisou ser encaminhada à Unidade de Terapia Intensiva (UTI), assim como a mãe. “Graças ao bom Deus, nem eu nem ela fomos para a UTI. Depois do parto, eu fiz quatro quimioterapias, fiz cirurgia, a masectomia bilateral, tirei axilas e fiz radioterapia." Beatriz junto da mãe e da filha Arquivo Pessoal Após a quimioterapia, Beatriz passou por cirurgia para retirar a mama esquerda, onde estava o tumor, além de alguns linfonodos da região da axila. Em razão da idade e das características consideradas incomuns do caso, ela também optou, após conversar com a equipe médica, pela retirada preventiva da outra mama. "A gente fez a cirurgia da mama esquerda, que era a doente. Retirou a mama toda, tirou alguns linfonodos embaixo do braço. E a gente fez uma cirurgia profilática do outro lado, por toda essa situação, por conta da idade dela, por conta de ter sido gestante. Como é um caso de muita raridade, a gente achou melhor, em uma conversa conjunta, decidir fazer a profilática contralateral também, para ter um menor risco para ela de ter uma recidiva do tumor e tudo mais", explica o mastologista. O sonho de amamentar Apesar das batalhas vencidas, Beatriz ainda precisou lidar com uma das partes mais difíceis para ela: não poder amamentar Alice. Em alguns períodos, ela também teve que manter distância da filha por causa dos efeitos da quimioterapia. "Quando eu fazia quimioterapia eu tinha que ficar quatro dias sem poder encostar nela porque a quimioterapia é muito forte. Os médicos me explicaram que a gente transpira e nessa transpiração passa as quimioterapias. Imagina o coração de mãe, tendo que ficar longe dela?", aponta. "A mãe já se culpa por natureza eu me culpava O meu sonho era amamentar e eu não pude. O mamar foi só mamadeira. No começo não gostava, pedia para a minha mãe ou para o meu esposo. Hoje eu super entendo. Graças a Deus que foi só o mamar, mas eu estou aqui viva com eu e ela", completa. Alice recebeu amamentação na mamadeira. Não poder amamentar a filha foi um das dores que impactou Beatriz Arquivo Pessoal Remissão Um dos momentos mais marcantes da trajetória foi o fim da quimioterapia. Sem que Beatriz soubesse, familiares e amigos organizaram uma surpresa no hospital: mais de 80 pessoas participaram da homenagem, usando camisetas com uma fotografia da família e uma frase que acabou inspirando o título do livro. “Para a gente que faz quimioterapia, é como se tivesse tirado um peso, como se fosse uma vitória”, compartilha a paciente. Beatriz compartilhou nas redes sociais momentos da última quimioterapia Beatriz considera a última quimioterapia um dos momentos mais importantes de sua vida, ao lado do batismo, do nascimento da filha e do casamento. Para o médico, acompanhar o tratamento de Beatriz também foi uma experiência marcante. Ele descreve a paciente como uma pessoa “iluminada” e comenta sobre a postura positiva dela diante dos desafios ao longo do tratamento. "A Beatriz é iluminada. Quando ela passava no consultório, a gente falava, 'nossa, é surpreendente que você não está sentindo nada', mas na realidade ela estava sentindo, mas ela conseguiu não mostrar isso. Ela é muito positiva. E eu acho que isso beneficiou muito em relação a ter menos efeitos colaterais. Isso tudo é comprovando, pacientes que têm uma religiosidade, que têm uma positividade, vão melhores no tratamento, tanto na parte de resposta oncológica, quanto menos efeito colateral nos tratamentos", observa. Beatriz está em remissão do câncer após passar por quimioterapia, cirurgia para retirada das mamas e radioterapia Arquivo Pessoal O médico explica que Beatriz teve câncer antes dos 30 anos e durante a gravidez, duas situações consideradas raras. Por causa da idade, ela também passou por investigação genética para verificar possíveis mutações relacionadas ao câncer de mama. O resultado foi negativo. "Ela é uma paciente de realmente raridade e quando a gente pensa em câncer. E em geral, nesse tipo de caso, a grande maioria dos casos, ela acaba dando como positivo uma paciente com mutação no gene e que isso pode ser transmitido. No caso dela, não deu, o que é muito bom para ela, porque na realidade a filha é mulher, então ela não vai transmitir isso para a menina", explica o médico. Atualmente, segundo o mastologista, Beatriz está em remissão e segue em acompanhamento médico. Inicialmente, a avaliação pela mastologia deve ser feita a cada seis meses, com exames de imagem e avaliação clínica. O acompanhamento oncológico também inclui exames para verificar outras regiões do corpo. “O primeiro e segundo ano são o momento mais preocupante para esse tipo de tumor. Mas a fase inicial e mais crítica dela já está passando”, explicou. História que virou livro Desde o momento em que recebeu o diagnóstico, Beatriz começou a registrar por escrito o que estava vivendo. A preocupação era deixar para Alice uma espécie de relato sobre a história da mãe, caso não conseguisse sobreviver à doença. “Eu pensava: se eu morrer, eu quero contar para minha filha o que aconteceu. Porque ela era muito desejada. Era um sonho meu de infância. Então, eu queria contar para ela que ela foi desejada. Eu queria contar para ela ”, relata. Beatriz conta que tinha o sonho de ser mãe desde pequena Arquivo Pessoal Beatriz continuou escrevendo durante o tratamento e, posteriormente, decidiu transformar os registros em um livro. A obra tem 142 páginas e foi publicada de forma independente. O texto reúne desde o sonho de ser mãe até a descoberta do câncer, a gravidez, o tratamento, o nascimento de Alice e os momentos vividos durante a recuperação. A paciente conta que preferiu não reler o livro depois da edição. “Eu quero que esteja o calor do momento, o escrito do momento. Eu queria que fosse o mais real possível”, explica. Para Beatriz, transformar a experiência em livro é uma também uma forma de ampliar o alerta para o diagnóstico de câncer . “Porque foi um alerta. Ninguém, eu mesmo, nem imaginei que uma nova podia ter. Eu não tenho caso na minha família. Eu fui a primeira”, afirma Beatriz. O lançamento do livro "Dois corações lutaram, dois corações venceram" será nesta quinta-feira (27), a partir das 19h, no Memorial do Rugby, em Tatuí. O evento é aberto ao público e gratuito. Lançamento do livro "Dois corações lutaram, dois corações venceram" será nesta quinta-feira (27), a partir das 19h, no Memorial do Rugby, em Tatuí (SP) Divulgação 'Meu maior sonho é ver minha filha crescer' Alice, a filha de Beatriz, está com um ano e seis meses. Para a mãe, depois de tudo o que enfrentou, o maior objetivo agora é acompanhar o crescimento da filha. "Desde os meus 11 anos eu tinha várias metas. A última meta que eu tinha na minha vida era com 30 anos, que era ser mãe. Até brinquei com a minha mãe que e eu pedi errado para Deus, eu tinha que ter pedido para ser avó, porque eu garantia que eu ia ver minha filha crescer. Hoje o meu maior sonho é ver minha filha crescer e viver os primeiros momentos da vida dela", finaliza Beatriz. Beatriz e a filha Alice, que completou um ano e seis meses Arquivo Pessoal Diagnóstico precoce Para o mastologista, o caso de Beatriz também reforça a importância de procurar avaliação médica diante de qualquer alteração nas mamas. Ele ressalta que o acompanhamento não deve se limitar aos exames de imagem. “Não é só fazer o exame. Muitas das alterações são palpáveis e não aparecem no exame. Então, essa relação de ter uma alteração no exame e uma palpação mamária com um profissional adequado é muito importante. Um não descarta o outro”, afirmou. 1 Unimed Cuiabá alerta que diagnóstico precoce pode garantir até 95% de chance da cura do câncer de mama. Reprodução De acordo com Guilherme, a partir dos 40 anos, a mamografia é o principal exame utilizado para o rastreamento do câncer de mama e tem papel importante na redução da mortalidade pela doença. O ultrassom, segundo ele, é um exame complementar. O médico também destaca que a descoberta do tumor em uma fase inicial aumenta as chances de cura. “Não importa se você vai ter um nódulo e esse nódulo é benigno ou maligno. O importante é a gente pegar ele no início. Se a gente pega um tumor no início, a chance de cura é muito maior. É por isso que a gente recomenda sempre fazer um acompanhamento, um rastreamento, uns exames, para a gente ter certeza absoluta de que não tem nada e, se tiver alguma coisa, pegar bem no início e ter um tratamento eficaz”, concluiu. Initial plugin text Veja mais notícias no g1 Itapetininga e Região VÍDEOS: assista às reportagens da TV TEM